zOOm - Fotografia Prática - Entrevista

January 1, 2016

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Entrevista

 

A sua câmara faz sobressair um certo Portugal que muitos de nós já tínhamos esquecido. É esse o Portugal que mais gosta de fotografar?

 

Sem dúvida, a fotografia permitiu-me conhecer de perto um Portugal mais profundo esquecido por alguns e desconhecido por muitos. Um Portugal de gente simples e humilde de grande coragem e tenacidade, lutando estoicamente contra a adversidade de uma interioridade redutora

 

Há ali gente simples, genuína e, por isso, talvez algo avessa a ter o retrato tirado. Foi difícil convencer os “modelos” rurais? E quais os segredos para os retratar de forma tão incisiva?

 

Nestes últimos anos visitei e continuarei a visitar de forma assídua, as pequenas e pitorescas aldeias rurais do interior do nosso país, criando amizades que me têm permitido, conforme menciona uma abordagem fotográfica mais incisiva. Muito naturalmente estas pessoas acedem a ser fotografadas, por quem já as conhece e as retrata dentro da sua maior dignidade. Não lhes “roubo” o retrato.

 

Mas não é só do campo que a sua fotografia se alimenta. Também há mar, cidades, montanhas... qual é o seu habitat natural? O sítio onde se sente em casa quando fotografa?

 

Durante o meu percurso fotográfico, experimentei vários temas: paisagem, macro fotografia, “street photography”, etc., etc., mas foi o retrato que mais me fascinou. Captar a essência, personalidade e estado de espirito do ser humano é e será sempre um grande desafio.

 

E a hora perfeita para fotografar. Qual é?

 

Como é evidente a luz é o elemento preponderante e fundamental na captação da imagem. Um excelente motivo com uma má luz, dificilmente resultará numa grande fotografia. A melhor luz quanto a mim, acontece em dias nublados ou chuvosos. Os céus mais poderosos criam ambiente à fotografia. O início da manhã é a minha hora preferida

 

Qual é o elemento-chave da sua fotografia? 

 

A luz natural.
A experiência que adquiri ao longo dos anos, permitiu-me apreender e conhecer a melhor luz e ter a perceção de como ela vai influenciar o resultado do motivo a fotografar. Aliado a esta, a edição da imagem é um importante contributo que vai reforçar e evidenciar contrastes, detalhes e cores. É nesta edição que dou um cunho pessoal às imagens que vou guardando.

 

Na origem da nossa ligação à fotografia há sempre uma história familiar, a influência de um amigo, uma câmara que nos vem parar às mãos... E a sua ligação à fotografia. Como é que começa?

 

Na minha juventude, na década de setenta, aos fins-de-semana contactava normalmente com um tio, irmão de minha mãe, que se relacionava comercialmente com japoneses. Daí aparecer sempre com as últimas novidades tecnológicas japonesas entre as quais, máquinas fotográficas. Como já na altura sentia uma grande atração por gadgets, não passou muito tempo adquirisse por seu intermédio uma Pentax que ainda guardo. Assim se iniciou este meu hobbie, exponencialmente desenvolvido após o aparecimento da fotografia digital.

 

Aproveitando uma distração sua, fomos espreitar para dentro do seu saco de fotografia. De tudo o que encontramos lá dentro, qual é a sua peça favorita? Aquela que tem um papel determinante no seu trabalho e o melhora decididamente?

 

Se a minha distração aconteceu antes de 2013 encontraram certamente uma pequena grande lente, a Canon 85mm 1.2 serie L versão II. Uma objetiva capaz de criar imagens únicas, acompanhando-me durante cerca de 6 anos. Se a espreitadela foi mais recente encontraram com certeza duas Nikon de anel dourado, a 28mm 1.8 G e a 24-70 f/2.8, esta última, um zoom muito versátil e capaz. No meu entender o melhor zoom dentro destas distâncias focais. Ambas as lentes criam um bonito Bucket, e ótima renderização de cores e contrastes

 

Incidentes de percurso todos os temos. Alguns ficam-nos na memória pelas piores razões, outros lembramos sempre com um sorriso nos lábios. É destes últimos que eu queria que falasse agora. Algum história divertida vivida de câmara na mão que queira recordar?

 

Recordo com agrado um passeio fotográfico com o amigo Paulo Barros, debaixo de um forte nevão na região de Montalegre. Depois de uma manhã recheada de bons momentos fotográficos, aproximava-se a hora de almoço. Chegados a Montalegre perguntamos por um bom restaurante para comer um cozido à portuguesa. Estávamos completamente encharcados, com frio e famintos. Logo fomos atendidos pelo dono do restaurante que nos avisou de antemão, vão comer muito bem mas vão pagar melhor. Ok dissemos nós, queremos é almoçar. Num instante aparece um senhor com um grande tronco de madeira ao ombro e um maçarico na mão para acender uma enorme lareira. Alguém trouxe de imediato um punhado de tangerinas e aí começa uma amena cavaqueira ao pé do lume que já crepitava. Entretanto sentamo-nos no escano embutido na parede (banco com espaldar alto, junto à lareira) e lá iam surgindo as melhores iguarias da região, para entrada. A neve lá fora continuava a cair e as nossas roupas iam secando com o calor que já se fazia sentir lá dentro. Chega entretanto uma grande travessa que dava sem exagerar para quatro ou cinco pessoas a comerem bem. Ao lado alguém sussurrava, não são homens para comer metade.
Lá começamos com a degustação do suculento cozido, regado com um bom vinho e o certo é que enquanto o troco de carvalho ia ardendo lentamente, do mesmo modo a travessa foi ficando vazia perante a incredulidade dos sussurrantes. Só me lembro de ter comentado no final: somos magros e franzinos mas somos do norte “caragu”.
Lá pedimos a conta a medo, não tivéssemos que hipotecar as máquinas fotográficas, mas o preço afinal estava de acordo com a qualidade do repasto.

 

Se a sua câmara falasse... o que diria ela?


Que gosta de me acompanhar neste pequeno projeto de documentação e divulgação da vida nestas pequenas aldeias onde as horas passam devagar, onde já não se vêm crianças a brincar nas ruas, mas onde ainda pulsa um Portugal rico em tradições e costumes, que não esmorece perante as dificuldades. Se não forem criados incentivos para fixar e trazer pessoas para estas aldeias, a tendência será a desertificação, desaparecendo assim uma parte importante da história da nossa identidade e da nossa cultura e a enorme perda do património humano.

 

Desafio final:


Pedimos-lhe agora que pegue numa fotografia das suas, à escolha (não tem necessariamente de ser a preferida) e nos descreva (em 4 a 5 parágrafos) todos os passos que levaram à sua criação, desde que imaginou a fotografia até ao momento em que dá o último toque no programa de edição.

 

No dia anterior carregam-se baterias, prepara-se o equipamento, pensa-se qual o melhor local a visitar e define-se no alarme do telemóvel a hora de despertar. Pela manhã bem cedo, ainda noite, inicia-se a viagem às terras de barroso. Chegado lá, a luz é muito dura, havendo então que encontrar alternativas. Passa o Dr. Fritz, convido-o para um cafezinho e de seguida proponho-lhe ir fazer umas fotografias na sua cozinha “museu” ao qual acede prontamente. Enquanto vai descascando umas batatas, espreito à janela e vejo ao fundo da rua a tia Ana. Esperei se aproximasse e conversa puxa conversa o Fritz lá de cima convida-a a entrar. Entre fumos da lareira e aromas emanados dos potes pretos que iam cozinhando o almoço, os cliques iam acontecendo sendo um deles o que regista a tia Ana pegando num crucifixo pertença da mãe do Dr. Fritz. Na edição optei por um preto & branco intemporal

 

 

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