Portugal Rural - A Fornada

(Texto de Aurora Simões de Matos Imagens de Armando Jorge)

A FORNADA

Ti Zefa da Pereira vai cozer o pão a grande fornada da semana inteira O forno que fica por cima do lume está quase pronto, vazia a pilheira de pinhas, chamiças, cavacos e torgas mesmo ali juntinho, perto da lareira Quando ganhar lastro, quando ficar quente varre-o com vassoura feita de carqueja arrastando a cinza ainda abrasida à boca escaldante, mesmo para a beira Tira um pedacinho de massa à masseira põe-no na escudela que foi polvilhada Trabalha brincando a bola que salta molinha, tenrinha, e que salteada tendida, estendida, redonda, achatada vai na pá de ferro ao forno a cozer coberta de carne, carne entremeada ou então sardinha, sardinha escochada O calor, a cinza, as brasas ajeita para o forno aberto Ti Zefa espreita

E enquanto espera que a bôla se coza para engalhar a fome à merenda dos seus revive na mente a imensa canseira de cozer o pão da semana inteira Arregaça a saia, arregaça as mangas e sempre encostada à grande masseira despeja da saca a farinha de milho que nessa manhã lhe trouxe a moleira e roda que roda, batendo a peneira polvilhos de neve de alva brancura vão formando um monte dentro da madeira E na maciez dessa fina alvura faz um buraquinho onde há-de caber o sal dissolvido em água bem quente e o peso certo do santo fermento que não é só seu, é de toda a gente Começa a mistura com jeito e doçura a seguir ao que, penosa tarefa é o amassar mexido, batido furado, entranhado, puxado, gemido socado, suado, sovado à mão num dançar ritmado até à exaustão Ajeita-se a um canto a massa já pronta polvilha-se, benze-se, sulca-se uma cruz e entrega-se assim nas mãos de Jesus que o há-de fintar e fazer crescer que é pão de outra cruz do nosso viver

Depois é no forno metê-lo e cozê-lo durante umas horas à porta fechada com porta de ferro, com lama vedada e quando se tira, bem quente, cheiroso é pô-lo na tábua 'inda a fumegar Cinco grandes broas que bem governadas hão-de na semana a fome matar Só filhos são cinco - o home anda fora mourejando a vida em terras distantes e tem que tratar do seu pai agora sem forças, que as forças se foram embora

As forças da vida, em cada tarefa põe-nas com amor a boa Ti Zefa criando seus filhos sozinha - e são tantos no duro trabalho do monte e dos campos a que dá inteiro o seu coração como quando coze, no forno, seu pão

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